A Bênção das Migalhas.

A parábola contada por Jesus que está registrada no Evangelho de Lucas no capítulo décimo sexto, versículo décimo nono ao vigésimo segundo, mostra um homem rico em seus afazeres terrenos e a forma como aproveitava a vida, como um administrador infiel em relação ao que demandavam a lei e os profetas, que o rico conhecia. É descrita a esplêndida vida de grande quantidade de bens desse homem rico, a saber, a púrpura era a cor vermelho-escura de um tecido de lã, vendido por preço extremamente caro. O bisso era um tecido de algodão ou linho não menos precioso, que igualmente custava muito. Ambos os tipos de tecido eram tão luxuosos que somente reis e sacerdotes tinham condições de usar tais vestimentas. Banquetes festivos aconteciam diariamente em sua casa.

    No mais intenso contraste com essa descrição do esplendor e luxo é apresentado um homem destituído de qualquer sorte temporal na mais profunda miséria, que desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do homem rico. Assim como o rico se regozijava magnificamente todos os dias, assim a penúria do mendigo era sua deplorável situação diária permanente.

    Chama atenção que não se menciona o nome do rico, enquanto o do pobre é citado. Trata-se da única vez em que um nome é citado em todas as parábolas de Jesus. O nome Lazaros deve ser derivado tanto de Lo-eser quanto de Ele-azar. O nome Lo-eser significa “sem ajuda”, nesse caso o pobre destituído de ajuda. Ele-azar significa “Deus é a ajuda”, acepção em que Lázaro seria alguém que permite que Deus seja seu socorro. O significado idêntico do nome Lázaro com o recorrente “Eleazar” aponta para o fato de que o pobre suportou sua miséria na confiança em Deus.

    Lázaro jazia “jogado” no acesso ao portão do rico. A forma “jogado” expressa melhor a construção da forma passiva do texto original. No entanto, é possível que estivesse prostrado por uma enfermidade conforme registro no Evangelho Segundo Mateus no oitavo capítulo, sexto versículo e décimo sexto. Aqui o termo significa que o pobre nem mesmo era capaz de movimentar-se livremente e, além disso, que as pessoas que o traziam à frente da porta do rico livravam-se dele como de um fardo pesado que se lança por terra. Ao lado da necessidade de cuidado sua fome não-saciada deveria ter causado a compaixão do rico. Contudo na casa do rico não havia disposição para ajudar.

    De maneira drasticamente intensificada o relato prossegue, dizendo: “Mas até mesmo os cães vinham e lambiam suas chagas”. Ao pobre não eram propiciados nem cuidados nem atendimento. Recebia tão pouca atenção que somente os cães cuidavam dele, lambendo com compaixão canina suas feridas.

    Lázaro morre e nada é dito acerca de um sepultamento do pobre, de quem talvez ninguém tenha sentido falta. Jesus permite em um curto espaço de tempo usando a morte representando o fim do sofrimento e a entrada na beatitude para o pobre. Da terra, palco de seu sofrimento, os anjos o carregaram ao colo de Abraão.

Abraão aparece aos israelitas como ponto de encontro e convergência pessoal no mundo dos mortos. Por isso, ser reunido com Abraão e poder fruir junto dele a bem-aventurança significa a felicidade máxima para o israelita. A concepção da comunhão de mesa não está necessariamente contida nessa expressão. Constitui tarefa dos anjos carregar os devotos que falecem até o colo de Abraão. Desse modo também Lázaro foi transferido até esse local pelo serviço dos anjos. Jesus diz acerca do pobre somente aquilo que vale também para todos os demais devotos em Israel.

As informações dadas acerca do pobre conduzem à história do rico. Relata-se que ele também morreu. Antes, porém, de se mencionar a situação em que ele se encontrava, é acrescentado que ele foi sepultado. Nada trazemos quando nascemos e nada levaremos quando o Senhor nos chamar. Para Lázaro a morte trouxe o fim de seu sofrimento terreno, para o rico o fim de sua felicidade na terra.

Duas realidades são apresentadas aqui, a primeira demonstra toda ostentação egoísta do rico, tudo na vida deste homem reflete alegria, felicidade e prazer. Ele vive regaladamente em festas e banquetes. Suas roupas são caras e luxuosas, ele fazia da vida uma festa contínua, pois “todos os dias se regalava esplendidamente”. Ele não é acusado de crimes, não é tachado de caluniador, fraudulento, assassino, adúltero, imoral. Infelizmente o rico não entendeu que ele deveria possuir o dinheiro e não o dinheiro o possuir, ele viveu uma riqueza sem Deus. Esse rico não tem tempo para Deus nem para o próximo necessitado à sua porta.

A segunda realidade apresentada é a miséria extrema de Lázaro que pode ser vista de forma dramática apontadas no texto, ele era mendigo, estava com fome, coberto de chagas, os cães lambiam suas úlceras. Mesmo Lázaro vivendo neste estado ela confiava em Deus e sabia que o Senhor jamais o desampararia, os anjos o levaram para junto do Pai.

Viver para Cristo é ter a certeza de que somos forasteiros aqui, não se deixe ser levado pelas futilidades deste mundo, mas viva aqui intensamente para Cristo em comunhão com Ele.

Lázaro queria receber apenas as migalhas que caiam para alimentar-se, o Senhor lhe concedeu algo muito maior do que alegrias passageiras neste lugar, lhe deu a salvação, levou-o para um lugar não existe dor nem ranger de dentes.

Que o Senhor quando chamar-nos receba nosso espírito nos reinos dos céus para honrá-lo e glorificá-lo por toda eternidade.

Que o Senhor o abençoe ricamente!

Rev. Cristiam Matos